Dia do orgulho nerd: reflexões sobre ser nerd e negra nesta data

Eu me descobri nerd aos 11 anos, pelo menos era a impressão que tinha. Na época os meninos brancos, considerados os nerds da turma, falavam que ninguém podia se autoconsiderar qualquer coisa, e que no máximo eu não passava de uma CDF (pessoa muito inteligente e esforçada que prefere estudar do que participar de atividades sociais e festivas, sendo geralmente o melhor aluno da sala). Característica que me apontavam não por ser inteligente, mas sim apenas uma estudante certinha e sem graça. 

Eu ficava sem saber qual era meu lugar no mundo. O que é normal para uma criança entrando na adolescência, afinal estava apenas no início do caminho. Olhando minha aparência da época, você facilmente me encaixaria na categoria geek: cabelos enormes e desgrenhados, óculos e aparelhos móveis. Além do meu apreço por ciências – a natureza é realmente algo que me fascina até hoje. 

Contudo, não era suficiente. Eu poderia decorar todas as falas dos filmes de super-heróis, ver a cronologia completa de Star Wars, ler a trilogia do Mochileiro das Galáxias, e mesmo assim, não adiantaria. Ninguém me via como parte da tribo. Mesmo eu me identificando 100% com ela, eu não era aceita.

Na época, não entendia o porquê. Pensava ser devido a minha falta de conhecimento em histórias em quadrinhos (eu só tinha acesso aos que me emprestavam), ou por não gostar muito dos filmes do Batman (em minha defesa, são todos chatos!), ou porque não tinha lido ainda a trilogia completa do Mochileiro das Galáxias (o meu acesso a livros também era limitado). 

Mas, hoje sei o real motivo. Eu não era a imagem do nerd que a Cultura Pop vendia em seus produtos: brancos de classe média, com óculos e trejeitos “esquisitos”. No fundo, eu sempre soube que era por isso, porém não queria aceitar. 

Porém, continuei a buscar espaço nesse lugar que nunca me quis. Entrei em grupos do Facebook, segui páginas no Instagram, fazia o que estava ao meu alcance. Conversava com quem estava disposto a me ouvir sem rir do que eu achava sobre tal série ou longa-metragem. 

Entretanto, até nesses locais eu era excluída. Não tinha espaço para uma nerd negra nessa época em lugar nenhum. Eu ficava me perguntando o que mais tinha que fazer, se algum dia me sentiria parte daquilo. 

Percebi, então, que poderia ler todas as sagas de super-heróis possíveis, ir a todas as pré-estreias, participar de todos os eventos. Eu nunca pertenceria a essa tribo. Porque ela não foi feita para mim, nem para os meus. 

Eu sou uma nerd (ou geek, o que preferir), preta, que começou a gostar de super-heróis na infância, cujo lema é poder e responsabilidade, que leva a Cultura Pop a sério demais. 

Durante um tempo não encontrei ninguém como eu, mas os ventos da mudança já sopram com certa força. E sou grata por isso, pela existência de blogs como o Preta, Nerd, Burning Hell, pelo canal do Load, da Andreza Delgado, das Afrofuturas, da Afrofuturista Cearense, ambas no Instagram. Vocês me mostraram que podemos construir o nosso próprio lugar de resistência, o nosso quilombo. Dessa inspiração, o Quilombo Geek nasceu. 

Talvez o “Dia do orgulho Nerd” tenha sido pensado de início para os brancos de classe média que gostavam de ficar enfurnados em livros e histórias em quadrinhos. Mas, eu reivindico ele para todos aqueles que se sentem assim como eu, que tiveram esse espaço negado. 

Feliz Dia da Toalha  e Wakanda Para Sempre.

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