“Manhãs de setembro”: o afeto é a potência necessária para transformar a realidade

Em “Manhãs de setembro” (2021), somos apresentados a Cassandra (Liniker). Uma mulher trans que está batalhando para se tornar uma cantora famosa. Mas, quando ela consegue se estabelecer em um lugar só seu, um filho de um relacionamento do passado aparece.

A série da Prime Video foi indicação de uma amiga muito querida (obrigada, Nati). Confesso que antes de assistir, fiquei receosa de ser uma trama pesada, porém me deparei com uma surpresa boa: uma narrativa cheia de afeto sobre a realidade, que não apela à espetacularização da dor do outro. Algo comum quando falamos sobre produções que trazem um protagonismo fora do padrão branco cis e heteronormativo.

Não é uma história leve, estamos falando aqui de um Brasil que a grande mídia faz questão de esconder ou quando mostra, é sempre sob a mesma ótica. A história se passa na periferia da maior capital do país: São Paulo – conhecida por ser o centro onde tudo acontece.

Karina Teles (Leide), Gersinho (Gustavo Coelho) e Cassandra (Liniker) em reunião de escola em "Manhãs de Setembro". | Quilombo Geek
Foto: Reprodução

Somos levados a uma cidade que promete oportunidades a todos, contudo, não consegue oferecer o básico a quem mais precisa. É neste contexto que “Manhãs de setembro” se insere, quando Gersinho (Gustavo Coelho) e Leide (Karine Teles) surgem na vida de Cassandra.

A mulher conta com a ajuda de Vanusa (Elisa Lucinda), uma cantora famosa da Jovem Guarda dos anos 1960 para lidar com a situação. A artista atua como uma “voz da consciência” que guia a protagonista.

A relação das duas é muito interessante, é como se Vanusa fosse uma mestre jedi e Cassandra fosse uma padauã. Em alguns momentos, nos dando uma leve ideia da relação entre as duas cantoras e a mãe da personagem, que também era fã de Vanusa. No entanto, a relação familiar não é bem explorada.

Liniker como Cassandra em "Manhãs de Setembro". | Quilombo Geek
Foto: Reprodução

Creio que isso tenha sido proposital, porque a sensação que a série nos dá é que Cassandra é de fato a heroína da própria história. Ela alcançou um certo poder (de sustentar a si mesma, morar sozinha) e agora terá de decidir se irá cuidar da responsabilidade (um filho).

A trama nos conta essa história de maneira sensível e sabe aproveitar com qualidade os 30 minutos divididos em 5 episódios. Eu me vi rapidamente envolvida na narrativa, curiosa para saber o que o futuro reservava para Cassandra, Gersinho e Leide.

Lin da Quebrada como Pedrita e Liniker como Cassandra em "Manhãs de Setembro" | Quilombo Geek
Lin da Quebrada é Pedrita, amiga de Cassandra (Liniker) em Manhãs de Setembro. Foto: Reprodução

Paralelo a isso, as questões que fazem parte da vida de uma pessoas trans como o direito ao amor romântico, ao respeito e outras possibilidades de carreira além da prostituição são trazidas à tona. A produção faz isso de forma humana, sem usar da tragédia como um recurso de entretenimento.

“Manhãs de setembro” é uma obra fundamental para quem está cansade de acompanhar as mesmas histórias. É uma narrativa afetuosa sobre a realidade dura de ser um brasileiro na Paulicéia Desvairada.

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