Dia da África e do Orgulho Nerd: Representatividade ou representação? Uma reflexão sobre Pantera Negra

Mais um Dia do Orgulho Nerd e uma das poucas obras com afrocentradas no cinema continua sendo Pantera Negra, filme lançado em 2018

O Dia da África ou Dia da Libertação Africana é celebrado em 25 de maio. A data marca a criação da Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, para defender e emancipar o continente africano, em 1963. Mas, só foi oficializada em 1972 pela Organização das Nações Unidas (ONU). As lutas pela independência das nações africanas, contra a colonização europeia, o imperialismo estadunidense e o regime do apartheid são lembradas nesse dia. Assim como o movimento do Pan-Africanismo, que propõe a união de todos os países do continente como forma de frear as consequências da colonização e a exploração da África. 

Na mesma data é comemorado o Dia do Orgulho Nerd, que se dedica a homenagear os universos fictícios consumidos pelo grupo autonomeado nerd. A ideia surgiu após a morte de Douglas Adams, autor da saga “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Os fãs da série de livros decidiram que 25 de maio seria o Dia da Toalha, artefato importante dentro da narrativa de Adams, em 2001. Coincidentemente, estreava Star Wars nos cinemas, na mesma data, porém em 1977. 

Reprodução/Lucasfilm

As duas celebrações parecem não ter nada em comum além do dia em que são festejadas. Mas, quando falamos de Cultura Pop, elas se encontram nos super heróis africanos das histórias em quadrinhos e mais recentemente no filme Pantera Negra (2018). A produção é a única adaptação, até o momento de escrita desta reportagem, sobre um super-herói nativo da África. 

A quantidade de personagens nativos desse continente no mainstream ainda é pequena nas HQs, em detrimento das figuras estadunidenses e brancas. Não existe uma pesquisa que traga esse número para poder comparar, contudo, é só procurar na internet para verificar que são poucos. Além disso, os super-heróis africanos da Marvel e DC Comics foram criados por pessoas brancas que nunca visitaram um país africano. 

Com exceção de Ngozi, que foi desenvolvida pela escritora nigeriana-estadunidense Nnedi Okorafor. A heroína é inspirada nas meninas sequestradas pelo grupo terrorista Boko Haram, na Nigéria, em 2014. 

Cena de “Blessing in Disguise”, com a personagem Ngozi (Imagem: Reprodução/Marvel Comics)

Devido a esse olhar embranquecido, essas figuras são construídas com base em visões racistas e estereotipadas. Afinal, no final do século XIX e início do XX, as histórias em quadrinhos eram usadas como ferramenta para reforçar a ideia de que a branquitude era superior e portanto, tinha o aval de explorar as populações negras e asiáticas. 

Pantera Negra

Reprodução/Marvel Comics

O próprio Pantera Negra foi criado por dois homens brancos e estadunidenses, Stan Lee e Jack Kirby. O primeiro super-herói que representava a África tecnológica e avançada, ou seja, com um olhar diferenciado do que era apresentado pela cultura pop. Contudo, era retratado como um ser místico que ignorava os conflitos sofridos pelas outras nações do continente. 

Somente nos anos 2000, com o roteiro de Christopher Priest, é que o guerreiro de Wakanda assume outra postura. Dessa vez mais ligado com a população afro-diaspórica. Desde então, houve uma preocupação da Marvel em trazer autores negros como Ta-Nehisi Coates para escrever as histórias de T’Challa. 

Inclusive, a nova perspectiva é bem retratada no filme, que foi aclamado tanto entre os afrodescendentes quanto em pessoas nativas de países africanos. Como o cabo-verdiano Hedy Pina, de 37 anos. “Eu fui assistir ao cinema e achei muito afirmador, da valorização da cultura”. O professor de Filosofia, que mora em Fortaleza há 15 anos, alega que não só passou a ter um novo personagem de HQ favorito, como mudou a abordagem filosófica que estudava. “A partir desses momentos, dessas questões, comecei a trabalhar sobre o movimento da libertação da África com filósofos africanos”, explica. 

O professor de Filosofia Hedy Pina (Imagem: Arquivo Pessoal)

O também mestre em Filosofia, destaca que “o que mais interessa no personagem é justamente a conservação da cultura negra africana. Apesar de toda idealização norte-americana sobre a cultura e a vida, o Pantera Negra traz uma dimensão narrativa sobre a mitologia da origem de Wakanda. Misturando a mitologia, a religiosidade e a tecnologia. E o vibranium é como um presente dos próprios deuses para ajudar o povo a manter uma certa resistência”. 

Para o publicitário Andy Khamidi, de 33 anos, também de Cabo Verde, o filme de Ryan Coogler traz a “história de um reino próspero, assim como os países africanos que são ricos, em Wakanda tem o vibranium, mas que poderia ser diamante ou coltan, que é a mistura de dois minerais (columbita e tantalita), usado para a produção de notebooks, smartphones”. 

Divulgação/ Marvel Studios

 “O Pantera Negra explora um super-herói que se difere dos outros por fugir de estereótipos, ele tem uma família estruturada, não quer destruir o inimigo como a maioria faz, se distancia de outros heróis negros africanos diásporicos que tem um background mais desastroso”, Khamidi compara o longa com outras produções de  super-heróis negros que vieram antes, como a franquia de filmes Blade (1998-2002) e a série de televisão Luke Cage (2016-2018). 

Divulgação/Netflix

Para ele, tanto em Blade quanto em Luke Cage, os estereótipos e os clichês são utilizados na construção dos dois personagens. “Na história do cinema nos Estados Unidos, os negros são representados através de estereótipos, que também são reproduzidos no Brasil. O negro palhaço, a negra rabugenta, a negra que está ali sempre na posição de servir a família branca e não tem tempo para si, não tem família, não tem namorado. O homem africano que é violento, como acontece no filme ‘Beasts of No Nation’ (2015), com Idris Elba, escurece.”

Hedy afirma que a trama também consegue fazer uma alusão aos conflitos ocorridos pela decolonização das nações de África. “O filme vai trazer as questões da colonização africana e o isolamento total de uma sociedade para questionar. Por que não lutou em prol da defesa dos africanos? Que é  justamente a luta da revolução africana da década de 1960, quando a população africana estava pedindo a unidade dos países do continente”, declara. 

Representatividade e representação

Reprodução/New Line Cinema

Em 2018, em uma entrevista para o site The Hollywood Reporter, o ator Wesley Snipes, que interpretou Blade na franquia de filmes do caçador de vampiros, comentou que na década de 90 havia um projeto para Pantera Negra virar filme; mas após dificuldades, ele não foi continuado. “O filme do Pantera Negra é assinado pela Walt Disney, uma empresa que não tem compromisso antirracista e anticapitalista, mas que está atenta as necessidades de mercado, um mercado que nota as exigências do povo preto, porque somos consumidores”, observa Andy Khamidi.

“Para a gente produzir um cinema de super-heróis negros, vemos questões que passam por nós. Identificação, trazer a perspectiva do afeto com essa identificação, marcadores identitários, o acesso aos meios de produção”, finaliza o publicitário Andy Khamidi, que também realiza pesquisas acadêmicas sobre relações étnico raciais e publicidade, masculinidades negras e cinema, colonização e colonialidade no continente africano e ensino de história da África

O professor de filosofia, Hedy Pina, ressalta a importância de ter um super-herói que além de trazer o protagonismo negro, aborda questões que existem no cotidiano, mas que, muitas vezes, são ignoradas. “Pantera traz uma voz silenciada, traz uma cultura marginalizada e podemos ver que a reação foi muito positiva pela comunidade negra e pelos africanos em específico. Gostamos muito porque resgatou a nossa cultura. Ficamos maravilhados em ver um super-herói que representava a sua identidade. Afirmando que nós existimos. Embora não seja em uma versão ideal, mas o mundo vai nos conhecer, porque nós existimos.”

Reportagem escrita por Agda Sophia e Eduarda Porfírio

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